segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Só presta se for de ônibus

Observe com cuidado as duas imagens que seguem e descreva o que vê. A resposta direta, despejada na bucha do canhão, é típica de olhos medianos: a primeira foto é do interior da primeira classe de um avião e a segunda é do interior de um ônibus interestadual ou intermunicipal.

Mas existe uma outra resposta que já não se faz assim tão evidente: ambas as imagens têm diferentes histórias para contar e só uma delas é capaz de criar situações que despertariam inveja até no mais proeminente dos jatinhos de luxo...

Obviamente, já devem saber sobre qual delas iremos tratar: a segunda! ... E foi para isso que providenciei este post.


Se for ryca, entre aqui

Se for pobre, entre aqui

Ok! A primeira imagem retrata um espaço naturalmente destinado aos seres mais afortunados da sociedade e, muito provavelmente, a maioria de nós só o verá em revistas de recepção nas clínicas de emagrecimento ou através das cortinas semi-cerradas da classe-banheiro (ou classe econômica). Nunca tive a oportunidade de sorrir para um selfie no espaço retratado primeira imagem, mas quanto à segunda imagem.... ôôôôô...

Bem, a segunda... Olha, eu já entrei lá algumas vezes! Apesar disso, posso dizer sem medo de errar que ela lhe dará MUITO MAIS HISTÓRIAS para entreter seus netos quando for um velho chato e cagão.

contei uma dessas histórias no blog histórico do MRJ. Foi uma viagem curta de pouco mais de uma hora e, sem dúvida, ela não existiria caso estivesse viajando de avião. Mas, de ônibus, proporcionou uma experiência sufocante, porém compensadora.

Hoje vamos contar um outra. Já havia esquecido, pois acontecera por volta da 1995 quando retornava de Campinas para minha terra natal junto com uma horda de 15 trolls amigos em direção à cidade de Fortaleza/CE. Foram cerca de 3.600km de estrada e, claro, muita coisa acontece em 3.600km com uma horda de animais sedentos de diversão.

Agora vem a parte importante: TODOS ESTAVAM DISPOSTOS A SUBMETER-SE ÀS SESSÕES DE CANSAÇO FÍSICO, SOFRIMENTO, MICOS, DESESPERO e DOR que normalmente uma longa viagem de ônibus oferece. Bom, em verdade quando se entra num interestadual já se a assina esse contrato de todo jeito, então não há escapatória...

No grupo, nada de mimizentos que fazem viagenzinhas ali para o vizinho para lavar os pêlos anais em ofurôs com água aquecida aos sais de banho e depois dourar seus oxiúros ao sol. Na horda só havia CABRA MAXO E MULHER FÊMA, NORDESTINOS DE RAIZ, gente sem frescura cujo único objetivo era curtir a viagem e chegar ao seu destino em segurança.

O plano era sair de Campinas, parar em Salvador para o casamento de um amigo e seguir destino, num total de dois dias de viagem. Pegamos um Caprioli de Campinas para São Paulo e embarcamos no nosso transatlântico rumo à terrinha...

O bom e velho São Geraldo

Entramos na maior festa. Todos dispostos, arrumamos nossa tralha nos bagageiros do ônibus e partimos de Sampa. Fora uma das últimas vezes que vira o Terminal Tietê e experimentara a catinga de tanta gente fedorenta amontoada num canto só. Passou!

Tudo correu mais ou menos bem até umas 18:30h numa parada próxima à divisa entre os estados de São Paulo e Minas Gerais. Foi aí que as coisas começaram a complicar...

Na parada, comecei a observar os pequenos "Gênesis" que dariam início às histórias vindouras. Procure observar o que meus olhos de águia observavam. Leve em conta que estávamos entrando em Minas Gerais!!!
A betoneira

  • No assento a noroeste de onde eu estava, uma mãe dedicada alimentava seu filho de seis anos com três Danoninhos da Nestlé.
  • Ao norte, uns dois assentos adiante, um gordo portador de umas duas ou três bundas comia sua refeição caseira, cuidadosamente acondicionada por SuaMãe™ numa marmita de plástico marrom (parecia ser Tupperware). Chega ouvimos um tiro surdo quando ele a destampou.
  • Ao sul, um dos hordeiros trocava palavras com uma garrafa de Montilla que havia acondicioado no dia anterior.
  • Um jovem casal embarcava com seu pimpolho. Pelo visto, a criança tinha uns 8 a 10 meses de idade. Sentaram-se também ao sul, próximo à cozinha do ônibus.
Minas Gerais é um estado lindo, mas é cheeeeeio de serras, uma após a outra. E, claro, as estradas seguem um ritmo sinuoso, assim como tudo o que trafega em suas veias. Pois é... o ônibus sobe e desce, balança para lá e para cá, valsando na pista feito os sapatos polidos do Fred Astaire. Umas 2 a 3 horas depois começou o moído...
  • A criança vomitou todo o Danoninho no corredor central.
  • Um mal cheiro que lembrava ovo podre no urucum emanava dos assentos traseiros.
Enquanto isso, o gordo da marmita corria para o banheiro. Dava para ver uma mensagem clara estampada em sua testa: "Corre que o charuto está no beiço!" 

O gordão descarregou tudo lá atrás. Mal entrara no banheiro e os urros começaram. O barulho parecia o de garrafões de água enchendo na torneira pressurizada. A marmita não lhe fizera muito bem. Uns 15 min depois ele saíra em direção ao seu assento privilegiado nas primeiras poltronas... para seu alívio... e desespero do pessoal da cozinha. Podre! É só o que posso dizer... 

Enojado, acho eu, o pimpolho do jovem casal acordou e mostrou para que veio ao mundo. Enquanto os pais engulhavam assombrados pelos gases nobres do banheiro, tentavam em vão consolar seu filho menor, oferecendo-lhes leite e outros agrados saborosos (Estamos em Minas Gerais! Lembre!). Reunimos os afetados numa assembléia e entendemos prudente abrir as janelas traseiras para que os maus espíritos procurassem o caminho das florestas.

Funcionou! O mal cheiro havia todo o corredor, de norte a sul, posto que o bebê também vomitara o leite que seus pais ofereceram. Crianças são assim mesmo...

Chegamos em Salvador! Descobrimos que o cheiro de ovo podre era do hordeiro que vomitara à noite enquanto dormia. Sua bile havia lavado a janela do ônibus e, definitivamente, aquilo era nojento!

Superamos a primeira fase.

Fomos à festa de casamento do nosso amigo. Foi 100%! Todos exageraram, obviamente! Não é todo dia que nordestino vê boca livre... e o creme de galinha com arroz branco estava divino. O caldo de mocotó também, sem falar no doce de coco verde e na galinha à cabidela. Carne de bode bem cozida e bem torrada, com bastante cebola, batata doce e nata de leite fresco. Aquilo sim era uma recepção! Nada de frescuras de gente besta. Era comida para fazer merda... muita merda!

Dormimos em um mosqueiro próximo à casa do nosso amigo. O hotel era safado, mas, pfffff, quem ligava. Um dos nossos colegas havia soltado um peido à noite e cagado na cueca. Tiramos o maior sarro! Mas essa cueca... ah... bendita cueca!

Na manhã seguinte, tomamos café e partimos novamente. Mas o melhor estaria por vir. Lembra do cara que cagou na cueca??? Pois bem, o sujeito foi colocar sua mochila da Trilhas & Rumos no bagageiro superior interno do ônibus quando algo surpreendente aconteceu: o compartimento superior da mochila pendeu dependurado e "AQUELA CUECA" foi exposta ao público.

Neste momento, escutei pela primeira vez "O chamado". Ou era o amigo ou a piada. Não hesitei:

- EEEEEEEEEEEEEEITA, SÓ O LASTRO!!!!!! - gritei lá de trás.

Todos viraram seus olhares curiosos para a cueca com uma senhora freada de caminhão adornando o seu eixo medial. Esses malditos riram como nunca. Adultos, velhos e crianças gargalhando num coro de almas ensandecidas. Uma velha que estava do lado disparou e não parou nos próximos 3 minutos.


O pobre hordeiro não me perdoou, mas guardou seu item de colecionador e sentou-se envergonhado em sua cadeira. Depois que tudo se acalmou, saímos de Salvador e seguimos viagem.

Por volta de meio dia paramos em um restaurante de meio de estrada. Era grande! No estacionamento contei cerca de uns 12 São Geraldos que estavam por ali. Ao entrar, nos deparamos de cara com um festival de pingentes de garrafas PET cheias de água pendendo dos caibros do teto. Pareciam enfeites de natal. O garçon justificou que eram usadas para espantar moscas. Putz! Que ideia merda! (eu testaria aquilo depois)

O serviço era no estilo self-service selma-serve. Cada um pegava sua bandeja e seguia na fila.

- Quer frango?
- Sim!
E Selma jogou a banda de um frango no meu prato!
- Poxa! Como comem aqui! - disse eu.
- Quem trabalha, come! - disse Selma

Entendi muito bem o recado e fui para a mesa com os demais!

Havia na mesa ao lado um sujeito corpulento, já beirando os 55-60 anos. Enquanto escalava seu prato de bom pedreiro, havia um pobre bichano aos seus pés esmolando um resto de frango que pendia da lateral. Confesso que tive pena do gato viajante, mas gatos são bichos nojentos e acabam tendo por merecer.

Assim que o sujeito terminou sua refeição, afastou a cadeira e preparou-se para levantar. Ocorre que o pé do cidadão pousou exatamente no rabo do felino. Esse último, sem opções, disparou um sonoro MEAAAAAAAUUUUUU que quase batiza as calças do sujeito.

No impulso, o pé direito do cidadão, energizado com o mais puro ódio (deu para ver nos seus olhos sanguinolentos), preparou o plano de vôo do gato, que foi arremessado sem dó nem piedade para o centro do restaurante.


Enquanto o bichano traçava sua perfeita trajetória parabólica, comecei a ensaiar um goooooooooooool, mas olhei nos olhos do sujeito e vi um rosto pesado, com traços riscado pelo tempo, sugerindo poucos amigos. Retraí-me ao meu estado catatônico e segui o meu caminho.

O gato caiu de pé sobre seus quatro pilares e saiu dali cambaleando para a morte certa. Não o vi novamente, mas as palmas para aquela performance ressoaram em todo o ambiente.

Pouco depois, deu para perceber que o sujeito tinha bom coração se arrependera do feito, mas sabe como é... nordestino é nordestino e, de praxe, segue a máxima do "atire primeiro, pergunte depois". Hoje já não faz diferença, pois o evento ocorreu há uns 20 anos e provavelmente aquele gato já morreu (e se está vivo, não passa bem).

Seguimos caminho e o final da aventura se aproximava. Mas tudo indicava que a viagem seria fechada com chave do ôro! Depois de quase um dia dentro de um São Geraldo, regado a muitas brincadeiras, é normal fazer, bem... não diria amigos, mas... talvez, bons conhecidos. A turma do ônibus acabou gostando da nossa companhia e, próximo ao destino, ensaiamos uma que deve marcado as vidas de todos.

Na época, o programa Silvio Santos brilhava aos finais de domingão feito espinhaço de pão doce ao pôr-do-sol. E todos gostavam do Atroveran. Ah... o Atroveran! Aquele jingles era fantástico e nos
lembrava do que deveríamos tomar em caso fortes cólicas menstruais e outros tipos de dores espasmódicas.



Começamos a cantar o jingles e logo todo o ônibus rapidamente entrou conosco no migué. Era uma legião de desconhecidos unidos em prol do bem comum: a zoeyra. Depois de umas três tentativas, todos afinamos e imagina você o que aconteceu quando a partir do quarto ato a musiquinha soava:

Ai, ai, ai, aaaaaaaaaai como sofri.
Com uma cólica quase morri.
Só sei que logo, atroveran tomei. (pessoal da frente)
A dor se foi,  (filas do meio)
eu melhorei.  (filas da cozinha)

(coro uníssono)
Atroveran.
Tomou passou.
Atroveran.
Tomou passooooooou!!!!

Até o motorista embarcou no coral com sincronizando com a buzina. Simplesmente inesquecível!

Chegamos ao destino e os hordeiros tomaram seu rumo. Todos sabiam que aquela memorável história jamais se repetiria novamente.

Agora pergunto, caro leitor: e se a mesma viagem fosse realizada na classe econômica de um avião? A melhor história que sobraria para contar seria a de um banheiro ocupado ou um dente que você quebrou comendo os amendoins do lanche.

Por isso que eu sempre insisto: se for viajar e quiser colecionar boas histórias, só presta se for de ônibus.

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