quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Vivendo nas nuvens

Há uns 30 anos atrás, quando a maioria dos comentaristas ainda cagavam nas calças, tive a oportunidade de morar durante três meses em uma fazenda no interior da Paraíba. Não havia água encanada, energia ou telefone. Da Internet não se sentia falta, pois engatinhava no mundo e ainda não havia desembarcado em terras tupiniquins.


Todo dia trazíamos a água de beber no lombo de um jumento, de uma cacimba próxima que ficava a cerca de 1Km de distância da casa grande. Os banhos eram no açude, com a peia de fora, balançando ao ar livre que nos proporcionava a sensação de liberdade (roupas são uma prisão). Energia, pfff, nem pensar. À noite, usávamos lamparina a querosene, cujo pavio eu e meus primos tecíamos usando algodão colhido no terreiro da casa. Havia um telefone sim. De baquelite, lindo e pesado, mas servia apenas para adornar o armário que guardava as louças na sala de jantar.

Foi uma das épocas mais divertidas que já passei. Nossa rede social era composta de primos e primas que passavam as férias juntos aprontando todo tipo de molecagem.

Mas acabou.

Hoje temos outras preocupações. E, dia a dia, estamos deixando parte dessas preocupações a cargo de terceiros que, até certo ponto, têm nos servido muito bem. Vou me servir de exemplo, mas acredito que a maioria dos leitores segue o mesmo rumo.
imagens de nuvens (queria o quê?)

Sou quase uma propriedade da Google! Observe:

  • Guardo meus contatos no Google Contatos, afinal não sou rico e uso Android como SO móvel. Antigamente, usávamos uma agenda de papel (R.I.P.) para isso. A agenda do Xip da operadora quebrava o galho, mas sincronizar contatos era chato às vezes. A Google economiza muitos aborrecimentos sincronizado tudo NA NUVEM. Comprando um celular novo, é só PUXAR da NUVEM.
  • Meus emails vão no Gmail. Ele me segue onde eu estiver. Deixa lá... tudo guardadinho NA NUVEM, devidamente sincronizado no celular. Nada de cartas de papel. O servidor do provedor... nem sei se existe! Sou usuário GVT Vivo e nunca procurei saber.
  • Muitos dos meus documentos vão no Google Drive, mas meu trabalho mora no Drop(box). Novamente, tudo NA NUVEM. (Nota de revolta: Poxa, porque a Google não faz logo um cliente oficial para Linux? Os que existem por aí são podres)
  • Minha agenda mora lá também... NA NUVEM. Eeeeeu? Ficar lembrando de centos compromissos que posso ter? Deixa que a Google lembra para mim.
  • Alguns dos livros que leio estão NA NUVEM também. Leio muito no celular (e às vezes no desktop). Deixa tudo sincronizado que tá bom demais.

Não guardo tudo lá. Informações pessoais e familiares, fotos e coisas mais importantes deixo reservado em algum lugar, com seus respectivos backups.

A nova tendência é a NUVENFICAÇÃO (me corrijam!) dos jogos. Tudo online, sem a necessidade de um PC caralhudo ou um PS4 Ultra Neo Super da nova geração.

Estamos colocando tudo NAS NUVENS. Tá! Mas se chover e a NUVEM sumir?

Até algum tempo, ficar sem energia era o fim do mundo. Quando ela volta depois de um apagão, tem galera gritando. Hoje, apagões de Internet e seus serviços podem acontecer. Quando VapVap sai do ar, por exemplo, a galera surta! Já fiquei 2 horas sem Internet. E, admito: faz falta sim.

Sou antigo (Velho, Nunca!), mas procuro me adequar às ferramentas modernas. Entretanto, não posso negar que as dependências digital e NUVENZAL (me corrijam!) possam estar tomando as rédeas do nosso dia-a-dia.

Até que ponto é razoável deixar parte das nossas vidas (e responsabilidades) NA NUVEM?

Acho que ainda sobrevivo bem sem essas regalias sem as quais eu cresci. Afinal, já consegui viver sem nenhuma delas, sem energia, sem água encanada, telefone ou Internet. De volta aos velhos tempos...

Mas, e nossos filhos?!

Monkey.

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