quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Apenas dois segundos



São apenas dois míseros segundos...
(suficientes para pular direto aos comentários)

Porém, são mais que suficientes para experimentar uma mistura de sentimentos em uma das mais raras e indesejadas situações às quais o acaso submete um indivíduo. Envolve prazer, desespero, suadeira, nonsense, “deu tempo!”, “onde estou?”, “foda-se o mundo”, além de uma série de outras sensações que ninguém se dispõe a descrever com palavras.



Quem já conseguiu chegar a tempo de sentar no trono e finalmente remover aquele abençoado tampão que o separava de sua plenitude como ser humano entende muito bem do que se trata primeiro parágrafo.


Este, senhores, foi o final de uma quase desventura que nos ocorreu há cerca de um ano atrás. Acredito não ser o único a ter passado pela mesma experiência. Portanto, será um bom momento para relembrar da sua e, talvez, compartilhar conosco deliciosos momentos de desespero e vergonha alheia.


Colecistectomia


A colecistectomia é um procedimento cirúrgico que consiste na retirada da vesícula biliar. É sempre indicada quando o paciente é portador de cálculos biliares que, se obstruírem a saída da vesícula, podem levar o indivíduo à morte. Normalmente, isso não é bom. De praxe, os médicos afirmam que a vesícula e todo o lixo que há lá dentro são removidos para que sua vida continue normalmente.

Tudo mentira! Não é bem assim…

A vesícula realiza o acúmulo do “detergente” necessário para quebrar as gorduras que você ingere diariamente. Se abusar de uma picanha, a vesícula despeja mais detergente… Ocorre que, sem vesícula, o excesso de gordura passa direto. Vitamina de abacate: nem pensar... Galinha gorda com suco de manga: fuja... e por aí vai.

Tire suas conclusões!

Em suma, você geralmente passa a cagar mais vezes e mais fino. O problema é quando não dá para prever as ocasiões em que a natureza fará o seu chamado. Normalmente, as Leis da natureza agem por sua conveniência e, por conseguinte, jamais se adequarão às suas (conveniências).

E viva a mãe natureza! As consequências de uma colecistectomia ocorrem, sem exceção, nos momentos mais propícios ao desespero, tais como em uma inocente feira de sábado...

A feira do sábado


Sábado é dia de feira. Matiníssima, sacratíssima feira. Todos os sábados, tomo rápido café e vou à feira providenciar meus insumos para construir o mais abençoado de todos cafezes da manhã: tapioca rechada com carne de sol e coentro, regada ao café com leite.

Como já me conheço, visito o banheiro antes de sair justo para evitar surpresas. É. Mas a natureza sempre conspira. E este foi um dia agraciado...

Saí para feira no meu veículo novinho, um Nissan recém-adquirido, ainda não maculado por papéis de confeito, pedaços de batata frita e dedos sujos nos vidros, entre outras imundícies que crianças costumam lançar. Um carro zero! E... carro zero é CARRO ZERO!

Ahhhh! A feira foi um sucesso só. Tudo de bom e do melhor. Muita calma, paciência, olhando barraca a barraca as miudezas, frutas, verduras e pinduricalhos que existem naquele recanto de variedades.
Imagem aleatória ilustrativa para manter o leitor na página

-Que bela Jaca, dona Maria!

-Lindas essas laranjas!
-O tomate? É "a como"?
-A nata é de hoje?
-Quanto é o Kg do feijão?

Nunca pensei que minha paciência fosse custar tanto...


Terminei a feira e busquei o destino do carro. Mas... espere... algo estava errado... Um burburinho... Um gargarejo... Uma leve pontada no desviado...



Era o sinal!

A viagem

Corri! Mas não podia correr. Correr só catalizaria o processo com a acomodação das camadas de solo no intestino. Andar era proibitivo. Precisava agilizar. A marcha atlética ajudou.

Cheguei no veículo que estava a uns 100m de distância do ponto zero (isso dá uns 500m sob pressão descontrolada). Procurei abrir o porta-malas. Errei o botão do controle remoto duas vezes. Roguei uma praga! Aquelas inscrições em relevo que colocam nos controles são simplesmente inúteis em situações de emergência.


Finalmente abriu! Joguei tudo lá dentro (a feira, prezado leitor) e corri para a porta do motorista. Me fiz piloto e lancei uma prece. Começaria a viagem de volta. Já sabemos do final: acabou dando tudo certo, mas sempre há trevas antes da luz...


Do ponto onde deixei o carro em repouso até a segurança do lar foram aproximadamente 2,5Km bem medidos e bem pesados. Muito bem pesados, por sinal. Conte comigo:

  1. 11 semáforos
  2. Duas faixas de pedestre
  3. Seis curvas acentuadas
  4. Quatro lombadas.
Tudo deveria ser vencido: obstáculo a obstáculo. Eu, claro, no volante... dirigindo... guiando o veículo. E, nesse dia fatídico, o destino sempre acrescenta bônus para que suas lembranças sejEm imortalizadas em pedra.
  1. TODOS os semáforos estavam fechados.
  2. Uma faixa de pedestre foi contemplada com um idoso. A outra, com uma jovem senhora paciente puxando um bulldog francês idoso. 
  3. As curvas pareciam ser de 270 a 300 graus. E, claro, permeadas por outros veículos que, pacientemente, as circulavam, com o devido cuidado de não arranhar suas calotas no meio fio.
  4. As lombadas estavam do mesmo jeito, mas pareciam maiores quando as venci. O sobe-e-desce definitivamente não ajudou.
Por dois quilômetros e meio ouvi toda sorte de ruídos, fervilhados, borbulhados e esticados, entre outros cuja descrição me falha no momento. Os ruídos eram acompanhado de dores lancinantes que incitavam a vergonha pública. As trevas procuravam a luz. Dentro do carro JAMAIS FARIA AQUILO. NUNCA!

Considerei algumas opções:



Perigosa. O carro do Google Maps poderia me surpreender


Sujeita a falhas de execução de projeto. Vide próxima imagem.


Máculas eternizadas na lembrança do CARRO ZERO



Muita sujeira que jamais sairia com lavagens convencionais


A opção ideal, mas só estará disponível EmBreve™ para público seleto.

Precisei segurar tudo! Tudo! Tudo! Tudo! Suor, lamúria, desespero, dor, sufoco e ansiedade. Metro a metro, obstáculo a obstáculo. Foram 17min de purgatório (o que dá cerca de uma hora por Km rodado).

A chegada 

Cheguei. A última curva anunciava a vitória. Abriria a porta da garagem e me lançaria adentro. Mas, antes, tive que colocar o carro protegido dentro a segurança do lar e aguardar o portão fechar. (nota: Preciso trocar o motor desse portão.)

Corri para o banheiro. Tirar o cinturão, abrir o botão da bermuda e baixar o zíper. Quase deu tempo. Deixei um pedaço de mim onde não devia, mas aqueles dois segundos...

Ahhhhh... dois segundos...

E você, já passou por alguma situação parecida? Comente seus momentos de desespero conosco.








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